Quando a crítica vira conveniência

Fábio Paiva

Como jornalista, confesso o constrangimento — e até tristeza e vergonha — ao observar o rumo que parte expressiva da grande mídia brasileira tomou nos últimos anos. Não pela crítica em si, que é saudável e indispensável à democracia, mas pela forma como ela passou a ser exercida: seletiva, tardia e, muitas vezes, conveniente.

Causa espanto ver veículos que, até pouco tempo atrás, endeusavam ministros do Supremo Tribunal Federal, tratando-os como figuras acima de qualquer questionamento, agora descobrirem, quase de repente, problemas, excessos e contradições que sempre estiveram à vista. O que mudou não foi a realidade, mas o enquadramento. Não foi a conduta, mas a narrativa.

Durante anos, decisões controversas, posturas personalistas e sinais claros de extrapolação institucional foram relativizados ou simplesmente ignorados. Quando questionar era necessário, o silêncio prevaleceu. Agora, quando o vento político sopra em outra direção, a crítica surge com força — não como resultado de um súbito compromisso com a verdade, mas como reposicionamento estratégico.

Isso não é amadurecimento editorial. É cálculo.

A mídia tradicional parece agir de forma coordenada não para defender princípios, mas para preservar relevância, acesso e influência. Ajusta o discurso conforme o cenário, abandona personagens quando eles deixam de ser úteis e reescreve o próprio passado sem o menor pudor. Tudo isso contribui para uma crise profunda de credibilidade, alimentando a desconfiança de um público que já não aceita narrativas prontas.

O problema não está em criticar ministros do STF hoje. O problema é não tê-los criticado quando era jornalisticamente obrigatório fazê-lo. Jornalismo não pode funcionar como linha auxiliar de projetos de poder — sejam políticos, judiciais ou econômicos. Tampouco pode atuar como torcida, escolhendo quem merece escrutínio e quem deve ser blindado.

Quando a verdade só é reconhecida “quando convém”, ela deixa de ser verdade jornalística e passa a ser apenas instrumento narrativo. Sem coerência, sem memória e sem autocrítica, o jornalismo abdica de sua função social mais básica.

Talvez o que estejamos testemunhando não seja apenas uma crise institucional, mas algo mais grave: a falência de um modelo de mídia que trocou o contraditório pela conveniência, a independência pela acomodação e a ética pelo alinhamento circunstancial.

Desabafar sobre isso não é amargura. É um gesto de compromisso com o jornalismo que deveria existir — e que ainda precisa ser resgatado.

Fábio Paiva é jornalista “raiz”

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *