Fábio Paiva
O episódio envolvendo a primeira-dama Rosângela Lula da Silva e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no qual foi preparado e consumido um prato à base de paca, pode até não configurar ilegalidade — mas expõe um problema maior: o impacto simbólico das atitudes de quem ocupa o topo do poder. Segundo relatos, a carne teria origem em criadouro legalizado, o que, em tese, afasta a caracterização de crime ambiental. Ainda assim, limitar a análise ao aspecto jurídico é ignorar o que realmente está em jogo.
O Brasil tenta reconstruir sua credibilidade ambiental no cenário global, defendendo a preservação da biodiversidade e o combate a práticas ilegais. Nesse contexto, a exposição pública do consumo de um animal silvestre nativo — ainda que legal — cria um ruído desnecessário. A paca, para a maioria da população, não é vista como um produto comum de consumo, mas como parte da fauna que se busca proteger. O gesto, portanto, comunica mais do que a legalidade permite: ele normaliza, simbolicamente, algo que o próprio país tenta combater quando ocorre fora da lei.
Em cargos de alta visibilidade, não basta agir dentro da legalidade — é preciso medir o impacto de cada gesto. Em temas sensíveis como o meio ambiente, prudência e sobriedade não são virtudes opcionais, mas exigências do cargo.
No exterior, onde a percepção muitas vezes supera os detalhes técnicos, esse tipo de episódio, acontecido no espaço gourmet do Palácio da Alvorada, pode reforçar críticas recorrentes ao Brasil. A coerência entre discurso e prática é um ativo estratégico em diplomacia ambiental, e atitudes vindas das mais altas autoridades tendem a ser interpretadas como sinalização política. Mesmo sem ilegalidade comprovada, o episódio alimenta narrativas de contradição e fragiliza a posição do país em fóruns internacionais.
Internamente, o problema é igualmente relevante. O exemplo dado por figuras públicas influencia comportamentos e percepções. Ao tratar com naturalidade o consumo de um animal silvestre, abre-se espaço para confusão sobre o que é permitido e o que é crime, especialmente em um país onde a caça ilegal ainda persiste e a fiscalização enfrenta limitações. O risco não está apenas no ato em si, mas na mensagem que ele transmite.
No fim, a questão não é se houve crime, mas se houve prudência. Em temas sensíveis como o meio ambiente, espera-se que líderes não apenas cumpram a lei, mas ajam com responsabilidade ampliada, conscientes do peso simbólico de seus gestos. O episódio da paca não deve gerar consequências jurídicas, mas já produziu um efeito político claro: desgaste. E, em um momento em que o Brasil busca reafirmar sua liderança ambiental, é um desgaste que poderia — e deveria — ter sido evitado.
Fábio Paiva é jornalista, designer gráfico e analista em conteúdo
Artigo publicado pelo Diário do Poder

