O filho, o poder e as explicações que Lula deve ao Brasil

Fábio Paiva

Há escândalos que atingem um governo pelo que já foi comprovado. Outros, pelas perguntas que se acumulam sem resposta. As revelações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, ainda estão no terreno das investigações, mas já alcançaram dimensão suficiente para ultrapassar a vida particular do filho do presidente.

Reportagem da revista Veja, baseada em inquérito sigiloso da Polícia Federal, revelou detalhes das suspeitas de tráfico de influência envolvendo Lulinha, a lobista Roberta Luchsinger e o empresário Fernando Bittar. Segundo a PF, o trio teria atuado de forma coordenada na intermediação de interesses privados junto ao governo. A investigação aponta ainda “comunhão de interesses econômicos” entre Lulinha e Roberta e apura uma possível sociedade oculta.

Investigação não é condenação. A defesa de Lulinha nega irregularidades e afirma que ele não participou de negociações com a administração pública. Lula não é investigado nesses inquéritos. Feitas essas ressalvas indispensáveis, permanece uma pergunta política incontornável: o que o presidente sabia?

Entre as mensagens obtidas pela PF há uma especialmente incômoda. Roberta contou a um interlocutor que Lula teria lhe oferecido a possibilidade de escolher onde gostaria de trabalhar no governo. Segundo o diálogo revelado pela Veja, ela respondeu que preferia permanecer em sua sociedade com “Fábio e Fernando”.

Se o relato corresponde aos fatos, Lula sabia da relação empresarial entre seu filho, Roberta e Fernando Bittar? Se sabia, conhecia os negócios que desenvolviam?

O caso se torna ainda mais grave porque parte das investigações nasceu do escândalo dos descontos indevidos sobre aposentadorias e pensões. Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, está preso. Outros personagens importantes também foram alcançados por prisões no curso da Operação Sem Desconto.

É nesse contexto que surge outra pergunta legítima: diante do volume de mensagens, relações financeiras e elementos que levaram à abertura de três inquéritos envolvendo Lulinha, por que ele e Roberta permanecem em liberdade?

Prisão preventiva não pode ser antecipação de pena. Exige requisitos legais específicos, e Roberta já foi submetida a medidas cautelares. Mas a sociedade tem direito de saber se os mesmos critérios são aplicados indistintamente. Há risco de interferência na investigação, destruição de provas ou movimentação patrimonial? Se não há, que isso seja explicado. Se há, por que medidas mais rigorosas não foram consideradas?

Uma das frentes investiga tratativas para a venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde, operação que poderia alcançar centenas de milhões de reais. A pasta afirma que nenhuma compra ocorreu. Ainda assim, permanece uma questão perturbadora: por que empresários e lobistas próximos ao filho do presidente acreditavam possuir canais capazes de abrir portas dentro do governo?

Lulinha, por sua vez, vive na Espanha. Sua defesa afirma que ele reside no país desde 2023 e retornará ao Brasil caso seja convocado. Em Madri, controla a Synapta SL, empresa registrada na Espanha, embora sua defesa diga que atualmente não exerce atividade. Morar no exterior evidentemente não é crime nem permite falar em fuga. Mas a circunstância ganha relevância diante das investigações.

E um episódio recente tornou o quadro ainda mais delicado. Na noite de quarta-feira (19), Lula recebeu no Palácio da Alvorada Marco Aurélio de Carvalho, advogado de Lulinha. O encontro, com a participação de Fernando Haddad, durou mais de três horas e também tratou das investigações contra o filho do presidente.

Segundo relatos publicados, o advogado reclamou de supostos vazamentos de informações da Polícia Federal e defendeu providências para apurá-los. Lula teria reiterado que não interferirá na PF e orientado o filho a colaborar com as investigações.

A posição é correta. Mas a reunião provoca uma pergunta institucional inevitável: é adequado que o presidente da República discuta, na residência oficial, com o advogado particular do próprio filho questionamentos sobre a atuação da Polícia Federal que investiga esse mesmo filho?

Não há evidência de que Lula tenha determinado interferência na investigação. É preciso deixar isso claro. Mas a fronteira entre a preocupação legítima de um pai e as responsabilidades do presidente da República precisa ser absolutamente transparente.

Lula sempre sustentou que ninguém está acima da lei. É exatamente esse princípio que deve valer agora.

Cabe à PF investigar, ao Ministério Público avaliar as provas e à Justiça decidir. Aos investigados, presunção de inocência. Ao presidente, transparência.

Lula precisa explicar o que sabia sobre as relações empresariais do filho; se realmente ofereceu cargo a Roberta; se conhecia a sociedade mencionada por ela; e se pessoas próximas a Lulinha tiveram acesso privilegiado ao governo.

Quando o investigado é filho do presidente, não basta que não exista favorecimento. É fundamental que não exista dúvida razoável sobre tratamento privilegiado.

Presunção de inocência para quem é investigado. Rigor e critérios iguais para quem investiga. Transparência para quem governa.

Fábio Paiva é jornalista, escritor, designer gráfico e analista de conteúdo multiplataforma

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *