Fábio Paiva
A política externa do Brasil sob a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva tem sido um dos temas mais controversos da gestão atual. Enquanto o governo busca reposicionar o país no cenário global, suas decisões diplomáticas — especialmente em crises recentes envolvendo Venezuela, Irã e a concessão de asilo a figuras políticas de outros países — vêm sendo duramente criticadas tanto por opositores quanto por parte da comunidade internacional por aparentarem relativizar princípios democráticos e de soberania e alinhar o Brasil com posturas diplomáticas tidas por questionáveis ou até contrárias ao direito internacional.
Um dos episódios que mais intensificou esse debate foi a concessão de asilo diplomático à ex-primeira-dama do Peru, Nadine Heredia, alvo de condenações por corrupção naquele país. O governo brasileiro não só lhe concedeu abrigo, como enviou um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) a Lima para buscá-la, uma decisão que provocou fortes críticas de figuras políticas brasileiras, incluindo o senador Sergio Moro, que classificou a ação como um dos piores episódios da diplomacia nacional em décadas. O gesto também gerou indignação na imprensa e na sociedade peruana, que o consideraram uma interferência injustificável na Justiça daquele país.
Mais recentemente, no início de 2026, outro episódio inquietante fortaleceu as críticas: a ação militar dos Estados Unidos contra a Venezuela, que resultou no bombardeio de alvos venezuelanos e na captura do presidente Nicolás Maduro por forças americanas. Tal operação foi amplamente denunciada por governos latino-americanos e pela própria sociedade internacional como violação da soberania nacional e do direito internacional. O presidente Lula chegou a condenar veementemente essa ação, afirmando que ultrapassava “uma linha inaceitável”, violava a soberania da Venezuela e criava um precedente perigoso.
A posição oficial do Brasil nesse episódio, embora crítica à ação militar em si, também foi alvo de críticas por não enfatizar com clareza o caráter autoritário do regime venezuelano, nem propor uma estratégia clara de promoção de democracia ou proteção de direitos humanos no país vizinho, onde a oposição foi calada e presa pelo regime e Nicolás Maduro permaneceu no cargo graças a uma fralde eleitoral. Em vez disso, a defesa de uma postura “contrária ao uso da força” acabou sendo interpretada por muitos como um equívoco estratégico — uma diplomacia que prefere criticar intervenções externas legítimas à custa de relativizar o impacto de regimes autoritários próximos.
No âmbito internacional mais amplo, a situação evoluiu dramaticamente no último sábado (28), com ataques militares conjuntos dos Estados Unidos e de Israel contra alvos no Irã, num episódio que intensificou ainda mais as tensões no Oriente Médio e gerou reações críticas de líderes mundiais. O governo brasileiro, por meio do Ministério das Relações Exteriores, condenou publicamente os ataques, afirmando “grave preocupação” e reiterando que as negociações diplomáticas — e não ações militares — são o único caminho para a paz, apelando ao respeito ao direito internacional e à contenção para evitar escalada de hostilidades.
Esse posicionamento oficial reflete uma tendência da diplomacia brasileira recente: criticar ações militares de potências ocidentais em nome da defesa do diálogo, mesmo quando tais ações visam conter regimes que não respeitam práticas democráticas nem direitos fundamentais de seus próprios cidadãos, como o Irã, onde o regime teria assassinado pelo menos 48 mil pessoas, simplesmente por protestarem. Embora a defesa da negociação e do direito internacional seja, em princípio, uma posição plausível, críticos argumentam que o equilíbrio entre condenar intervenções externas e reconhecer a necessidade de responsabilização de regimes autoritários ou violentos não está sendo alcançado.
Outra dimensão crítica desse período é a crescente percepção de que, em vez de promover os valores democráticos e os compromissos internacionais históricos do Brasil, a política externa atual parece estar mais focada em alinhamentos políticos ideológicos ou em evitar o confronto militar a qualquer custo, mesmo quando confrontada com crises que desafiam esses mesmos princípios. Isto é particularmente evidente na resposta brasileira à crise no Irã: a condenação dos ataques, embora alinhada à tradição diplomática pacifista, não faz menção explícita às circunstâncias que cercam o regime iraniano nem a seus próprios abusos de direitos humanos, o que para alguns analistas representa um perigoso equívoco moral e estratégico.
Adicionalmente, essas posturas vêm em um momento em que a comunidade internacional discute com urgência temas como soberania, intervenção humanitária, segurança regional e o papel das grandes potências. A insistência em posturas que parecem descoladas da realidade dos regimes sob crítica — sem um posicionamento claro em defesa de princípios universais como democracia e direitos humanos — pode fragilizar a reputação do Brasil como um ator respeitável e influente nos principais fóruns multilaterais.
Em suma, enquanto o governo Lula tenta redefinir a diplomacia brasileira frente a um mundo de tensões crescentes, as escolhas recentes — desde a concessão de asilo político controverso até as posições em crises internacionais complexas envolvendo Venezuela e Irã — suscitam debates legítimos sobre prioridades, coerência e princípios. A continuidade dessas escolhas sem um balanço mais ponderado pode ampliar a percepção de um Brasil distante de um papel moral de liderança global e mais próximo de posturas ideológicas que marginalizam, em vez de integrar, a plena defesa dos valores democráticos.
Fábio Paiva é jornalista, designer gráfico e analista de conteúdo

